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“MULHER BRASILEIRA EM PRIMEIRO LUGAR”

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Hoje, o dia se apresentou de modo diferente. Em torno a nós, espalhou-se uma atmosfera repleta de uma pureza inebriante, de uma angélica doçura entorpecente, da mais cândida e imaculada das ternuras.       Hoje o planeta se curva para homenagear aquelas que deixaram de ser apenas “uma costela de um homem”, para se conceberem na mais forte e suprema graça.       O dia é internacional, mas a mulher brasileira merece um capítulo a parte.      Hoje até os rouxinóis mudaram seu repertório, para poderem homenageá-las com seu mais perfeito concerto de louvores.       Mulher, palavra que outrora fora sinônimo de submissão, agora se tornou de força, de determinação. Mulher brasileira, guerreira, charme e perseverança. Mulher de fibra, de batalhas incessantes.     Mulher brasileira, cantada nos versos de Vinícius, declamada nos olhos dos amantes, seja el...

TER OU NÃO TER NAMORADO - Artur da Távola

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Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou...

"ESTRELA GUIA"

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Olho pela janela a procurar Uma estrela que possa me guiar Pelas estradas da paixão. Mostre-me por caridade O caminho da felicidade De alcançar teu coração. Estrela que por muitas eras Será a estrela mais bela Luzindo no céu de minha vida. Quero pra sempre vê-la Por todo o tempo vou tê-la Iluminando essa estrada comprida. Estrela que no firmamento flameja E que no seu íntimo almeja Recostar no meu regaço. Estrela que me faz companhia Estrela que espera algum dia Se entregar em meu abraço. Brilha como uma jóia rara De uma beleza tão cara Vou sempre te buscar. E eu, poeta errante Mesmo se estás distante Amando-te vou te esperar. CLAY REGAZZONI (direitos reservados ao autor)

Para Sempre - Carlos Drummond de Andrade

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Para Sempre   Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.  Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho. Carlos Drummond de Andrade , "Lição de Coisas: poesia". São Paulo: J. Olympio, 1965.

DIA DA CRIAÇÃO - Vinícius de Moraes (Porque hoje é sábado.)

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Hoje é sábado, amanhã é domingo A vida vem em ondas, como o mar Os bondes andam em cima dos trilhos E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo Não há nada como o tempo para passar Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. Hoje é sábado, amanhã é domingo Amanhã não gosta de ver ninguém bem Hoje é que é o dia do presente O dia é sábado. Impossível fugir a essa dura realidade Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas Todos os maridos estão funcionando regularmente Todas as mulheres estão atentas Porque hoje é sábado. Neste momento há um casamento Porque hoje é sábado. Há um divórcio e um violamento Porque hoje é sábado. Há um homem rico que se mata Porque hoje é sábado. Há um incesto e uma regata Porque hoje é sábado. Há um espetáculo de gala Porque hoje é sábado. Há uma mulher qu...

POEMA - "NÔMADE"

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Eu vago pela vida sozinho Seguindo em minha caravana solitária Atravesso ruas, becos, praças e até o deserto Sem conhecer-me ao certo. Caminho pelo negrume vale do ocaso Um nevoeiro denso cobre a estrada Perdido entre os álamos tenho estado Sem descobrir o meu fado. Avisto ao longe o poente Mas ainda é vasto o caminho Procuro o amor que venero E que há muito tempo espero. Percorro o mundo inteiro Vou do Tártaro até o Olimpo Pareço um poeta errante Buscando um sonho distante. Não sei quando vai se findar Essa jornada incessante Sigo andando sem saber se um dia Encontrarei um oásis de alegria Onde possa enfim descansar. CLAY REGAZZONI (direitos reservados ao autor)

CONSELHOS DE UM VELHO APAIXONADO

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UMA CRÔNICA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira ...

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO

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Fernando Pessoa Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com...

A falta que ama - Carlos Drummond de Andrade.

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Entre areia, sol e grama o que se esquiva se dá, enquanto a falta que ama procura alguém que não há. Está coberto de terra, forrado de esquecimento. Onde a vista mais se aferra, a dália é toda cimento. A transparência da hora corrói ângulos obscuros: cantiga que não implora nem ri, patinando muros. Já nem se escuta a poeira que o gesto espalha no chão. A vida conta-se, inteira, em letras de conclusão. Por que é que revoa à toa o pensamento, na luz? E por que nunca se escoa o tempo, chaga sem pus? O inseto petrificado na concha ardente do dia une o tédio do passado a uma futura energia. No solo vira semente? Vai tudo recomeçar? É a falta ou ele que sente o sonho do verbo amar? Carlos Drummond de Andrade, A Falta que Ama

“CARTAS DE MEU AVÔ”

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Manuel Bandeira A tarde cai, por demais Erma, úmida e silente... A chuva, em gotas glaciais, Chora monotonamente. E enquanto anoitece, vou Lendo, sossegado e só, As cartas que meu avô Escrevia a minha avó. Enternecido sorrio Do fervor desses carinhos: É que os conheci velhinhos, Quando o fogo era já frio. Cartas de antes do noivado... Cartas de amor que começa, Inquieto, maravilhado, E sem saber o que peça. Temendo a cada momento Ofendê-la, desgostá-la, Quer ler em seu pensamento E balbucia, não fala... A mão pálida tremia Contando o seu grande bem. Mas, como o dele, batia Dela o coração também. A paixão, medrosa dantes, Cresceu, dominou-o todo. E as confissões hesitantes Mudaram logo de modo. Depois o espinho do ciúme... A dor... a visão da morte... Mas, calmado o vento, o lume Brilhou, mais puro e mais forte. E eu bendigo, envergonhado, Esse amor, avô do meu... Do meu, — fruto sem cuidado Que ainda verde apodreceu. O meu semblante est...

Elevação – Charles Baudelaire

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Acima dos valões, acima dos quintais, Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares, Muito depois do sol, dos campos estelares, Muito além dos confins das esferas astrais, Espírito meu, voas com agilidade; Como o bom nadador que na onda se excita, Mergulhas com prazer na amplidão infinita, Na indizível volúpia da virilidade. Decola para longe deste chão doente, Vai te purificar no ar superior E sorver o límpido, divino licor Da clara luz que inunda o espaço transparente. Em meio a infortúnio, mágoa e veneno, Que tornam mais pesada esta vida brumosa, Feliz de quem puder com asa vigorosa Alçar vôo no céu luminoso e sereno; Quem tiver pensamentos como a passarada Que no ar da manhã revoa em liberdade — Quem planar sobre a vida, entender a verdade, Na linguagem da flor e das coisas caladas! Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

"DEDICATÓRIA"

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Meu coração dedico a ti. Dedico também os sonhos meus Toda a minha mente Minhas esperanças todas E todo o amor que em mim existe. Meu ser dedico a ti. Minhas raras virtudes Meus desejos e alegrias E mesmo esse poema Tudo dedico a ti. Minha alma dedico a ti. A ti entrego meu coração Em tuas mãos ponho meus sentimentos Que inflama meu pensamento Na divina imensidão do teu sorriso. E mesmo que seja pouco. Minha vida também dedico a ti E no meu íntimo eu desejo Que você receba essa dedicatória Como a única forma que vejo De entregar-lhe o que levo no peito. CLAY REGAZZONI (direitos reservados ao autor)

Ode a uma estrela - Pablo Neruda

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Ao subir à noite no terraço de um arranha-céu altíssimo e aflitivo pude tocar a abóboda noturna e em um ato de amor extraordinário apoderei-me de uma estrela celeste. Era uma noite negra e eu deslizava pelas ruas com a estrela roubada em meu bolso. De trêmulo cristal parecia e era num átimo como se levasse um pacote de gelo ou uma espada de arcanjo na cintura. Guardei-a, temeroso, debaixo da cama para que ninguém a descobrisse, sua luz porém atravessou primeiro a lã do colchão, depois as telhas, e o telhado da minha casa. Incômodos tornaram-se para mim os afazeres mais comuns. Sempre com essa luz de astral acetileno que palpitava como se quisesse retornar para a noite, eu não podia dar conta de todos os meus deveres cheguei a esquecer de pagar as minhas contas e fiquei sem pão nem mantimentos.  Enquanto isso, na rua, se amotinavam transeuntes, boêmios vendedores atraídos sem dúvida pelo insólito clarão que viam sair de minha janela. Então recolhi outra vez minha estrela, c...

A VALSA : Casimiro de Abreu

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Tu, ontem, Na dança Que cansa, Voavas Co'as faces Em rosas Formosas De vivo, Lascivo Carmim; Na valsa Tão falsa, Corrias, Fugias, Ardente, Contente, Tranqüila, Serena, Sem pena De mim! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos,  Saltavam, Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias, Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ...

"AS SOMBRAS DO AMANHÃ"

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            Peregrinando por um beco gélido de sombras enfadonhas,  desconsolo-me à pálida ignescência de meu descarnado coração.   Inebriado pelo ópio dos desejos corrompidos pelo adejar da  quimera perdida, e pelo fogo de constelações extintas há milênios,  onde se esquece à pureza das flores.   Cartas suicidas não desvirtuam meus olhos conscientes. A  inexaurível soturnidade em que se hiberna o ermo âmago de  minha encarnada alma deturpa-me o espírito.    As sombras dolosas do amanhã incerto ecoam glacialmente por minhas  exangues veias, degradando as ilusões que outrora se degredaram na aurora de meus devaneios.    De mim já não faço mais parte. Não consigo voar com minhas asas quebradas e meu coração ferido. Dou uma volta fora de minha consciência, vejo em meus úmidos soluços de compaixão o repúdio indefinível de minhas esperanças.     Sublinho o me...

"CARNAVAL"

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Sou Pierrô contente Se comigo estás presente Minha doce Colombina. Sou sorriso e fantasia Quando vejo noite e dia A minha Deusa Menina. Sou Pierrô descrente Quando então está ausente O meu anjo mais querido. O meu rosto se refaz Numa lágrima que me faz Ser um Pierrô ferido. Sou Pierrô da alegria Faço festa e folia Só pra ver você passar. Eu celebro o teu encanto Pulo, danço e canto Pra tentar te conquistar. Sou Pierrô do mundo Quero viver cada segundo Na avenida da emoção Tocar tambor, ser musical Pra te fazer um carnaval Com o amor que tenho no coração. CLAY REGAZZONI (direitos reservados ao autor)

O teu riso - Pablo Neruda

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Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso. Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria, a repentina onda de prata que em ti nasce. A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar teu riso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida. Meu amor, nos momentos mais escuros solta o teu riso e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, ri, porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada fresca. À beira do mar, no outono, teu riso deve erguer sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora. Ri-te da noite, do dia, da lua, ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o...